Na edição anterior, apresentamos o ajuste hedônico como uma ferramenta importante para medir a inflação em produtos cuja qualidade melhora continuamente. Quando um computador dobra de desempenho sem alteração de preço, por exemplo, o método mostra que, em termos de capacidade entregue por unidade monetária, seu preço efetivamente caiu. Trata-se de um ajuste metodologicamente consistente, mas que também possui limitações.
O gráfico desta semana amplia a análise apresentada na edição anterior ao comparar a variação nominal dos preços dos componentes do índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos (CPI) desde dezembro de 1999. Além dos eletrônicos destacados anteriormente, foram incluídos outros bens e serviços essenciais, bem como o próprio CPI, utilizado como referência para a inflação agregada
Observa-se uma clara assimetria entre os itens que contribuíram para conter a inflação, notadamente bens manufaturados, como eletrônicos, vestuário e veículos, e aqueles cujos preços cresceram muito acima do índice agregado, como aluguel, serviços médicos e educação. Esse comportamento não é aleatório: enquanto bens intensivos em tecnologia se beneficiaram de ganhos contínuos de produtividade, serviços intensivos em mão de obra qualificada registraram aumentos persistentes de custos.
É justamente nesse segundo grupo que o ajuste hedônico encontra sua principal limitação. O método pressupõe que o consumidor possa, ao menos em teoria, substituir qualidade por preço. Em muitos serviços, porém, essa possibilidade simplesmente não existe. Enquanto é possível optar por um automóvel menos equipado ou por um televisor com menos recursos, não há uma versão “simplificada” de uma cirurgia, de uma consulta médica ou de uma universidade de referência.
Quando não existe uma alternativa de menor qualidade e menor preço, nem a possibilidade de reduzir o consumo daquele serviço, o aumento de preços eleva o custo mínimo de acesso naquele segmento. Assim, ainda que a qualidade tenha melhorado ao longo do tempo, a elevação do custo de vida continua pressionando o orçamento das famílias, sobretudo das de menor renda.

